Como estimular as funções executivas na primeira infância

O período desde o nascimento até os 6 anos de idade, chamado de primeira infância, é extremamente sensível para o desenvolvimento de inúmeras habilidades, entre elas as funções executivas.

 

Toda habilidade adquirida ao longo dos primeiros anos de vida vai servir de base para o desenvolvimento futuro. No âmbito das funções executivas, elas vão contribuir na tomada de decisões, no pensamento crítico e na autonomia do indivíduo, entre outros pontos.

 

São características que os pais desejam para os seus filhos, não é mesmo? Isso porque é fácil entender na vida adulta como elas podem facilitar a rotina e abrir portas, tanto no âmbito pessoal quanto na trajetória profissional.

 

Mas o que exatamente são as funções executivas?

 

As funções executivas são habilidades que nos ajudam a controlar e regular nossos pensamentos, ações e emoções. Diversos estudos indicam que um bom desenvolvimento do funcionamento executivo na infância está associado a um melhor desempenho na vida acadêmica e maior aquisição de capital humano.

 

As principais funções executivas são:

 

  • A memória de trabalho: habilidade de armazenar informações de curto prazo para que isso permita um raciocínio completo. Possibilita uma reflexão atenta, ou seja, intencionada para alcançar um objetivo
  • O controle inibitório: permite manter o foco e não se deixar distrair com o entorno, além de possibilitar que a pessoa pense antes de agir. O uso das telas, por exemplo, é um grande vilão para o desenvolvimento dessa função.
  • A flexibilidade cognitiva: capacidade de procurar soluções diferentes, de perceber um problema por outros ângulos. Contribui na solução de desafios inesperados.

 

As funções executivas vão se desenvolvendo ao longo da vida, conforme a pessoa cresce, mas o momento mais propício para isso ocorre entre os 3 e 5 anos de idade. O processo está relacionado com o córtex pré-frontal, parte do cérebro fundamental para o controle da atenção, do raciocínio e do comportamento, conforme aponta o artigo Funções Executivas e Desenvolvimento na Primeira Infância: Habilidades Necessárias para a Autonomia, do Comitê Científico Núcleo Ciência Pela Infância.

 

Como podemos perceber, são habilidades que diferente de um conteúdo escolar ou acadêmico, que pode ser memorizado, as funções executivas são assimiladas e então internalizadas.

 

Na primeira infância, as funções executivas vão se desenvolvendo sem que a gente explicitamente perceba, com brincadeiras e interações sociais que vão balizando a aprendizagem. Entretanto é essencial que seja dada à criança a oportunidade para esse desenvolvimento na faixa etária entre 3 e 5 anos.

 

 

Como incentivar o desenvolvimento das funções executivas

 

Um ambiente favorável para o desenvolvimento das funções executivas está diretamente relacionado com:

 

  • Exposição à situações e vivências saudáveis e diversificadas;
  • Um vínculo positivo e amoroso com família, amigos e cuidadores;
  • Estímulos físicos, cognitivos e emocionais.

 

Ou seja, elementos que proporcionam um ambiente saudável para o crescimento e desenvolvimento de uma criança autônoma e feliz.

 

No entanto, além de proporcionar tais condições, os pais também podem criar estímulos e brincadeiras que vão favorecer o aprimoramento das funções executivas. Alguns exemplos práticos são apresentados pelo Centro de Desenvolvimento da Criança da Universidade de Harvard, que possui um guia de atividades apontando como melhorar e praticar habilidades de funções executivas com crianças da infância à adolescência. Confira algumas sugestões apresentadas no material para cada faixa etária:

 

6 a 18 meses

 

Atividades que incentivam os pequenos a ficarem atentos, usarem a memória de trabalho (componente cognitivo que permite o armazenamento temporário de informação) e praticarem habilidades básicas de autocontrole.

 

Brincadeiras no colo dos pais

 

A repetição ajuda os bebês a lembrarem e gerenciarem o seu próprio comportamento para se encaixarem na brincadeira.

 

Exemplo: Achou! Jogos de esconder e aparecer desafiam o seu filho a lembrar de quem ou o que está se escondendo. Também fazem a criança praticar o autocontrole ao esperar o adulto aparecer ou questionar sobre o objeto que sumiu. Em variações da brincadeira, o bebê controla o tempo esperando o adulto surgir, regulando a emoção envolvida na expectativa pela descoberta.

 

 

Jogos de imitação

 

Os pequenos adoram imitar os adultos! E quando praticam a imitação, eles precisam lembrar o que imitar e esperar a sua vez.

 

Exemplo: você pode ensinar o bebê gestos simples, como acenar ou bater palmas, e incentivá-lo a repetir a ação treinando a memória e a inibição. Também pode organizar brinquedos por tamanho, esperando que a criança siga a ordem. 

 

18 a 36 meses

 

Nesse estágio os pequenos estão desenvolvendo a habilidade de fala. Brincar com a linguagem é importante para as funções executivas e para a autorregulação, por ajudar a criança a identificar os seus pensamentos e as suas ações. Por isso, tenta não interromper uma criança tentando expressar um raciocínio ou demorando para procurar uma palavra. Ela está fortalecendo todas as funções executivas: memória de trabalho (lembrar do que está falando), flexibilidade cognitiva (achar um jeito de se expressar com seu repertório reduzido), controle inibitório (não se desconcentrar com os estímulos em volta).

 

Acima de tudo, o importante é conduzir seu filho para a autonomia. Deixar ele tirar a roupa sozinho, comer por conta, tirar o sapato. São situações em que ele precisa se concentrar ou terá dificuldade. Dar espaço para a criança aprender talvez seja a melhor ajuda que você pode dar a ela. Inclusive, a especialista francesa em Funções Executivas Celine Alvarez aponta: “É uma manifestação da inteligência que pede para ser exercitada!”. Então, vamos deixar a criança fazer isso mesmo!

 

Jogos de movimento

 

Nessa idade os pequenos desenvolvem muitas habilidades físicas e adoram jogos e desafios de movimento. Atividades que exigem atenção e giram em torno de um objetivo são interessantes e um ótimo estímulo.

 

Exemplo: músicas com movimentos podem render brincadeiras divertidas! Alguns clássicos são “Cabeça, Ombro, Joelho e Pé”, “Carangueijo”, “Fui ao mercado” e tantas outras. Faça devagar para a criança ir acompanhando que logo ela estará fazendo sozinha, a partir da repetição e observação.

 

Brincadeiras de imaginação

 

Entre os 2 e 3 anos as crianças estão começando a desenvolver a capacidade de brincar com a imaginação, o famoso “faz de conta”. Muitos pequenos nessa faixa etária imitam a ação dos adultos, como segurar o telefone e dizer olá, copiar uma sequência como: pegar a faca, cortar o legume, jogar na panela e depois colocar no prato para comer, etc. Nessa idade, tais ações não são simplesmente uma imitação, mas já demonstram uma capacidade de entender sequências e reproduzir ações em uma determinada ordem. Ao segurar o telefone, por exemplo, seu filho não está apenas fazendo como você, mas imaginando com quem está conversando e toda uma história pode ter início a partir daí. 

 

 

Exemplo: Brinque de imaginação com seu filho deixando ele guiar a brincadeira, sem interromper para que ele faça um processo de brincadeira completo. Você pode ser o bebê e ele o papai ou a mamãe. Deixe ele pegar objetos como se estivesse cuidando de você, trocando a fralda de brincadeira, etc. Chore, imite os sons de um bebê e narre o que você e ele estão fazendo. Isso contribui no desenvolvimento da auto regulagem.

 

3 a 6 anos

 

Entre os 3 e 5 anos as funções executivas se desenvolvem muito, então é importante ajustar as atividades e brincadeiras de acordo com a compreensão da criança. Os pequenos ainda vão demandar mais suporte na hora de aprender regras e estruturas, enquanto os mais velhos já são mais independentes. O grande objetivo aqui é incentivar para que a criança não precise tanto da regulação do adulto, como um passo de autonomia.

 

Contação de histórias

 

As crianças amam contar histórias. Geralmente as narrativas começam como uma série de eventos, mas com o passar do tempo e um pouco de prática vão ficando mais complexas e com novos elementos. Assim, a criança vai praticando a manipulação de informações na memória de trabalho.

 

Exemplo: Conte histórias em grupo. Você começa e a criança continua, então cada pessoa participando da brincadeira pode adicionar um novo elemento. Pode brincar disso na mesa em família, até os adultos vão se entreter e vão ter que fazer prova de imaginação! Isso ajuda os pequenos a desenvolverem a atenção, concentração para possíveis desdobramentos da narrativa e a habilidade de ajustar as suas ideias para continuarem a história.

 

Desafios de movimento

 

Jogos e desafios de movimento dão suporte para as funções executivas porque as crianças precisam se mexer em um ritmo específico e em sincronia com palavras ou músicas. Isso contribui no controle físico e na memória de trabalho.

 

Exemplo: Proporcione oportunidades para a criança testar as suas habilidades físicas. Pracinhas e espaços ao ar livre são excelentes locais para isso. Crie pequenos circuitos ou desafios com obstáculos, como pular entre troncos, escalar um brinquedo, etc. Isso vai exercitar a atenção, foco e contribuir no ajuste de ações, além de incentivar a persistência para alcançar um objetivo (como completar o circuito, por exemplo).

 

Jogos de construções

 

Os jogos de construções desenvolvem muito bem as funções executivas. Isso porque treinam a atenção para conseguir encaixar, empilhar. Em caso de dificuldade, ela vai ter que achar um jeito de reparar ou reconstruir para que isso não aconteça novamente!

 

 

Exemplo: Aconselhamos jogos de blocos de madeira como os da Tibuá. No Instagram temos muitas ideias de construção, mas deixe também espaço para seu filho imaginar 🙂

 

De 6 anos em diante

 

A partir dessa idade os jogos ficam mais complexos e podem proporcionar desafios para a prática das funções executivas.

 

Jogos de tabuleiros e jogos de cartas

 

Desafiam as crianças a entenderem as regras, perceberem quando é a vez de cada um, buscarem estratégias.

 

Exemplo: Xadres, Uno, Ludo, Detetive, Jogo da Vida (a complexidade do jogo pode ir evoluindo conforme a criança cresce).

 

 

***

 

Espero que as ideias sirvam de inspiração para novas possibilidades de brincar e explorar em família! Lembre-se que elas são apenas um ponto de partida e que o mais importante é ajustar as brincadeiras dentro da sua rotina e do ritmo do seu filho, para que seja algo leve e positivo para todos em casa.

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